Segunda-feira, 1 de Setembro de 2008
Redes Sociais: Relações Entre Professores & Estudantes

Em meados de Agosto, a secção de tecnologia do site da CNN publicou um artigo extremamente interessante intitulado "Online student-teacher friendships can be tricky" e que nos deve fazer reflectir.

 

O artigo começa por referir o facto de alguns professores usarem sites de redes sociais como o MySpace como forma de os ajudar a comunicar com os seus estudantes sobre trabalhos de casa, explicações e outros assuntos escolares. O artigo conta a história de um professor de 52 anos que criou um perfil no MySpace e começou a receber mensagens de alunos seus a pedirem para o adicionarem como amigo e enviar-lhe questões sobre trabalhos escolares. Segundo este professor de Inglês, "o simples facto de eu estar no MySpace fá-los pensar 'Bem, talvez possamos falar com este tipo e abrir linhas de comunicação'.

 

Curiosamente, quando lancei os workshops "hi5ParaPais", fui positivamente surpreendido pelo interesse de muitos professores em tirar partido do entusiasmo dos seus alunos pelo hi5 e aprender a usar o hi5 numa perspectiva pedagógica de que são exemplo os seguintes comentários, sobre o que gostariam de aprender:

No entanto, o artigo refere que algumas pessoas receiam que os sites de redes sociais alimentem relações impróprias entre professores e alunos. Esta preocupação tem-se manifestado particularmente no Missouri, nos Estados Unidos, onde uma série de casos de relacionamentos sexuais entre professores e alunos despoletou um ataque aos relacionamentos entre professores e alunos. O artigo da CNN refere mesmo o caso de um site que regista os casos de professores disciplinados, presos ou condenados por comportamentos impróprios com alunos.

 

Perante estas preocupações, um legislador do Missouri está a patrocinar um lei que se propõe proibir os professores do ensino básico de manterem amizades com os seus alunos em sites de redes sociais. A isto, segundo o artigo da CNN, acresce que algumas escolas, sindicatos de professores e associações de pais e professores um pouco por todo o país estão a redigir políticas e a emitir conselhos sobre que tipo de relações online ou mensagens SMS são aceitáveis.

 

A isto, os professores respondem que os predadores continuarão a aproximar-se das crianças, mesmo que os relacionamentos online sejam proibidos. De facto, algumas destas medidas parecem-me casos típicos de "incendiar a aldeia para assar o leitão". Como refere um professor no artigo da CNN, quando já é tão difícil ajudar alguns miúdos, não se percebe que se tirem aos professores o acesso a ferramentas que têm ao seu dispor que lhes permitem fazer a diferença.

 

Segundo um jurista educacional citado no artigo, existe uma linha de demarcação entre professores e alunos e essa é uma linha da qual não se convém aproximar e muito menos pisar, aconselhando os professores afirmar desde o primeiro dia: "eu não sou vosso colega; eu não sou vosso amigo; eu sou só o vosso professor". Este jurista concorda que por vezes os professores precisam de comunicar com os seus estudantes depois das aulas, mas acrescenta que para esse efeito dispõem dos sites das suas escolas, eliminando assim a necessidade de utilização do Facebook, MySpace e similares, permitindo simultâneamente a possibilidade de monitorização de todas as comunicações estudante-professor.

 

Este ponto de vista parece-me excessivo e vindo de alguém que desconhece as funcionalidades limitadas disponibilizadas pela generalidade dos websites escolares. Até porque, como refere uma aluna no artigo, apesar dos professores disporem de páginas nos websites das suas escolas, a maioria dos estudantes raramente as visita.

 

Nesse sentido, estou com o professor citado no artigo que lamenta esta visão "maléfica" das tecnologias. Este professor alerta ainda para o facto da profissão, como outras que facilitam o contacto com crianças e jovens, atrair por vezes pessoas indesejáveis. Ou seja, não faz sentido que em vez de se preocuparem em lidar com este problema, afastando essas pessoas da profissão, as autoridades pretendam impedir os professores que não causam problemas de poderem ajudar algumas das crianças e jovens que mais precisam dessa ajuda.

 

Felizmente, esta não é uma voz solitária, havendo outras vozes com bom senso a pronunciar-se sobre o assunto, como é o caso do artigo "Legislating Teachers' Behavior Online". Por outro lado, os comentários no artigo no site da CNN são também uma leitura interessante, com alguns professores a relatarem as suas experiências. No entanto, como acontece sempre neste tipo de debates, algumas das opiniões expressas, deixam muito a desejar. Pelo menos em minha opinião.

 

A terminar, deixo a minha reflexão. A ausência ou fraco debate deste tipo de assuntos é o que, quandos os problemas surgem, a tendência seja para o surgimento de "soluções" extremistas. Este é assim um tema sobre o qual era importante a criação de orientações por parte das associações pais e professores, sindicatos, direcções regionais de educação e até pelo próprio Ministério. Isto porque, estou totalmente de acordo com o autor do artigo "Legislating Teachers' Behavior Online" quando este afirma que é necessário encontrar uma solução de meio-termo, entre proteger as crianças de predadores e permitir que as crianças possam contactar e estabelecer relações com as pessoas que podem fazer a diferença nas suas vidas de uma forma positiva. Proibir liminarmente os contactos entre professores e alunos não é solução. Concordo. Mas se este debate não se fizer, estaremos a dar azo a que surjam os bem intencionados com soluções extremistas e que tomam as decisões que outros se abstêm de tomar pela sua falta de debate.

 

Gostava de ouvir a opinião de pais, alunos e professores sobre este assunto, pedindo-lhe que use os comentários para o efeito.

 



Publicado por Tito de Morais às 19:23
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Comentários:
De Ana Paula Silva a 10 de Setembro de 2008 às 18:34
Olá!

Para os mais pequenos encontrei o site http://www.nestle.pt/namaior/ que tem disponível informação para pais, professores e educadores, sugestões de aulas e temas de trabalho e propostas de diálogo à volta dos mais novos.

Espero que vos seja útil! ;)

Beijos


De Tito de Morais a 11 de Setembro de 2008 às 18:11
Estimada Ana Paula Silva,

Obrigado pela sua mensagem e por partilhar as suas descobertas.

A propósito do site que recomenda, pessoalmente considero que pede demasiada informação de carácter pessoal para o meu gosto. Eis os dados pessoais que temos de ceder obrigatoriamente no processo de registo:
- Nome, morada, localidade, código postal, sexo, email, número de pessoas do agregado familiar, tem filhos (se responder que sim, provavelmente vai pedir-me os respectivos nomes e datas de nascimento), tem animal de estimação (se responder que sim, provavelmente vai pedir-me que indique se é cão, gato ou outro e pedir-me também o nome, raça e data de nascimento) e hobbies. E tudo isto apenas na primeira página.

Só preenche quem quer, é certo, mas eu neste tipo de site geralmente não forneço tantos dados que me parecem mais importante para o proprietário do site do que para mim.

Depois, lamento que o seu nome remeta para o site em questão e não para o seu email ou para um blogue seu, o que me leva a crer (e se estiver errado por favor desminta-me que eu apresentarei as minhas desculpas, pois admito que posso estar errado e a ser injusto) que este se trata de um post por encomenda... da Nestlé, da Longa Vida ou das respectivas agências de comunicação ou publicidade. Se for, tinha a Nestlé e a Longa Vida em melhor linha de conta.

Assim, em função do acima exposto, a todos os leitores deste blogue, não posso deixar de recomendar a leitura dos seguintes artigos:
- Crianças, Fast Food e Internet
http://miudossegurosnanet.blogs.sapo.pt/4122.html
- Obesidade e Internet
http://miudossegurosnanet.blogs.sapo.pt/5030.html

A terminar, mais uma vez obrigado pelo seu comentário.

Cumprimentos

Tito de Morais




De Anónimo a 23 de Setembro de 2008 às 22:07
Caro Dr. Morais

Estive a ler o seu artigo e, mais uma vez, gostei muito. Obrigada pela sugestão.
No final do ano lectivo passado, um aluno de 7º ano (actualmente meu aluno de 8º ano), enviou-me por mail (para o email que uso na Plataforma Moodle da Escola) um pedido de amizade do Hi5. Não lhe respondi. Achei que depois vinham dezenas de outros alunos fazer o mesmo, pois têm provavelmente o contacto uns dos outros. E depois fazem comentários...
Não percebo muito de Hi5 e às vezes quando estou com duas primas de Lisboa, acrescentam sempre alguma novidade ou fazem alterações na estrutura do meu. Claro que o meu tempo disponível é escasso senão tentava saber mais... isso também foi um dos motivos que me levou a inscrever no "workshop Hi5 para Pais".

Cumprimentos e Bom trabalho
Fátima Vieira


De Conceição Rosa a 31 de Outubro de 2008 às 17:04
Oi Tito
Vi a sua contribuição no grupo do yahoo e acabei parando aqui neste post ... Acredito que você tenha acompanhado a discussão sobre as redes sociais no Brasil. Aqui temos o orkut , e há casos de perfis falsos, outros criados especialmente para ataques a professores.
Acredito que os professores possam e devam se utilizar destes mecanismos de comunicação, mas o que me espanta é que os maus exemplos tenham mais força do que os bons exemplos, e que isto sirva como argumento para medidas restritivas.


De Tito de Morais a 1 de Novembro de 2008 às 17:50
Estimada Conceição Rosa,

Obrigado pelo seu comentário.

Sim, tenho acompanhado a debate no Brasil, focado essencialmente no Orkut, como refere. As situações que refere, também acontecem por cá e um pouco por todo o lado. No Brasil é com o Orkut dada a dimensão da comunidade brasileira no Orkut. Em Portugal é no hi5, pelos mesmos motivos. Isto é, estes casos não são exclusivo de uma ou outra rede social. No Brasil fala-se mais do Orkut e em Portugal fala-se mais do hi5 pela dimensão que estas redes sociais têm nesses países. Nos Estados Unidos por exemplo é o MySpace ou o Facebook e no Reino Unido o Bebo.

Concordo e espero ter deixado claro no post, que os professores (e os pais também) devem usar estas redes. Acho que todos temos a ganhar com isso.

Sobre os maus exemplos serem sempre notícia e os bons exemplos não tanto, tem a ver com a natureza dos media. As más notícias, pelo seu sensacionalismo, dão sempre mais audiências, o que é pena.

Obrigado mais uma vez por contribuir para a discussão.

Cumprimentos

Tito de Morais


De Conceição Rosa a 1 de Novembro de 2008 às 22:33
Hoje, entrando no site do Congresso de Tecnologias Educacionais, li o artigo da professora e educadora que alertava sobre o Orkut ter restrição de uso para menores de 18 anos. Isto pode ser um argumento legal para responsabilizar professores (e pais) até mesmo pelo seu uso como recurso de comunicação com os menores de idade. Mas a prática social, principalmente pelos adolescentes, ignora esta restrição.
O que você acha desta condição paradoxal? Como devem se posicionar professores e pais diante desta situação?


De Tito de Morais a 2 de Novembro de 2008 às 16:54
Estimada Conceição Rosa,

Obrigado por voltar a comentar e manter o debate animado.

A generalidade das redes sociais, nos seus termos e condições de utilização determina uma idade mínima para participar. Essa idade varia de rede para rede. Geralmente a idade mínima é de 13 ou 15 anos. Tal deve-se a que as leis nos Estados Unidos determinam que menores de 13 anos carecem de autorização parental para aderirem. A imposição de uma idade mínima é uma forma encontrada pelas redes sociais para evitarem essa autorização parental. O Orkut é um caso muito particular e acredito que a idade mínima de 18 anos se deva ao facto dos problemas que o Orkut tem tido no Brasil.

Parece-me bem que a Professora em questão tenha alertado para esse facto. Eu faço o mesmo relativamente ao hi5, uma vez que muitas vezes as pessoas desconhecem esse facto.

É verdade que os jovens, a maior parte das vezes ignoram essa restrição, limitando-se a mentir na idade na altura da inscrição, algo que muitos adultos também fazem, mas por razões diferentes ou não tanto.

Sobre o que acho desse paradoxo? São regras que existem como para muitas outras coisas e que há quem as siga e quem não as siga. Mas acho que isso não serve de impeditivo para a utilização de redes sociais com crianças e jovens, até porque existem outras redes sociais e algumas até específicas para crianças.

Aos professores aconselho algumas cautelas com este aspecto pois daí podem resultar consequências legais para eles. Entre outras cautela, acho aconselhável a obtenção de autorizações parentais antes de levarem os alunos a aderirem a redes sociais. Aos pais, aconselho-os a conhecerem as redes sociais frequentadas pelos fihos, incluindo os termos e condições de utilização e respectivas políticas de privacidade.

Estas são algumas das questões que abordo nos Workshops hi5ParaPais - http://www.hi5ParaPais.com - mas que também se aplicam a outras redes sociais e a outros serviços da Web2.0.

O problema quanto a mim é a falta de orientações a este nível para professores que no meu ponto de vista deveriam competir ao Ministério da Educação. Desconheço a situação no Brasil a este nível, mas julgo ser semelhante ao que se passa em Portugal.

O mesmo acontece com a falta de orientações para pais e encarregados de educação que, de alguma forma, tenho procurado colmatar desde 2003 com o Projecto MiudosSegurosNa.Net.

Espero ter respondido às suas perguntas e faço votos para que continue a manter este debate animado.

Cumprimentos

Tito de Morais


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