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Miúdos Seguros Na Net - Promover a Segurança de Crianças e Jovens na Internet

Minimizar Riscos, Maximizar Benefícios.

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Brincar com os números: "Internet – 30.000 Crianças Por Dia Vítimas de Assédio Sexual"

Tito de Morais, 07.07.09

Internet: 30.000 crianças por dia vítimas de assédio sexual”. Este foi um dos títulos de primeira página do semanário Expresso de 4 de Julho de 2009. O número já era por mim conhecido desde Março, quando surgiu pela primeira vez numa notícia do Correio da Manhã. Recordo-me de, na época, ter sido entrevistado por alguns órgãos de comunicação social a propósito deste número e de ter tido oportunidade de questionar a sua fiabilidade o que não obstou à sua vinculação pura e simples, por vezes com a indicação de que este número até podia pecar por defeito.

 

Contacto do Expresso

Daí que, ao ser contactado pelo Expresso no final de Junho, a propósito desta notícia do Correio da Manhã, ter tido o cuidado de alertar novamente para a falta de fiabilidade do número que esta última notícia do Correio da Manhã repetia. À jornalista que me contactou escrevi, fazendo referência à notícia do Correio da Manhã: “Gostava de deixar bem claro que não existe nenhum estudo que consubstancie as declarações atribuídas ao Inspector-Chefe Camilo Oliveira da Polícia Judiciária de Coimbra. Com todo o devido respeito que me merece o trabalho do Inspector-Chefe Camilo Oliveira e da Polícia Judiciária, este tema exige seriedade e responsabilidade na abordagem do mesmo. "Estimativas" do tipo regra de três, não se enquadram nessa perspectiva. Este tipo de afirmações primam pelo sensacionalismo e pelo alarmismo, em nada contribuindo para uma abordagem séria e esclarecida do assunto.” Depois deste alerta, foi com surpresa que li o título da primeira página do Expresso, desenvolvido na notícia da página 26, ao lado de uma peça, na página 27, para a qual prestei declarações, forneci informações, indiquei estudos estrangeiros sobre o assunto - com a ressalva que os dados destes não poderiam ser extrapolados para a realidade portuguesa - referindo ainda outras fontes potenciais que poderia ser interessante ouvir a propósito deste tema. 

 

Como se Chegou a Este Número?

Perante isto e para que este número não se transforme numa verdade inquestionável, importa perceber como se chegou a ele. Segundo uma nota de Fevereiro de 2009 do Instituto Nacional de Estatística (PDF 157 Kb), de acordo com o Inquérito à Utilização de Tecnologias da Informação e da Comunicação pelas Famílias (indivíduos dos 10 aos 15 anos) 2005 – 2008, “no primeiro trimestre de 2008, 96,6% dos indivíduos com idade compreendida entre os 10 e os 15 anos utilizaram computador e 92,7% Internet, enquanto que a utilização de telemóvel se situou em 84,6% neste grupo etário”. Segundo a já referida edição de Março do Correio da Manhã, em declarações aparentemente atribuídas ao Inspector-Chefe Camilo Oliveira, em Portugal, segundo o Instituto de Estatística, há 601 894 crianças com idades entre os 10 e 15 anos com net”. Não consegui confirmar este número, mas para efeitos desta explicação, dou-o como certo. Uma citação do Inspector-Chefe Camilo Oliveira nessa mesma edição do Correio da Manhã explica como se chega ao número de 30.000 crianças vítimas de assédio sexual na Internet: “Se 5% forem aliciadas sexualmente, isso representa um número elevado de vítimas ”. Sublinho o “se”... um grande “se”... ou seja, estamos perante uma hipótese extrapolada através de uma regra de três simples: se 601.894 é igual a 100% das crianças entre os 10 e os 15 anos com acesso à Internet, então, 5% é igual 30.095 crianças entre os 10 e os 15 anos com acesso à Internet vítimas de assédio sexual através da net. Estas 30.000 crianças tanto podem ser vítimas de assédio sexual através da Internet como de outra coisa qualquer. Em rigor, basta substituir a expressão “assédio sexual” por outra qualquer “et voilá”! E são 5% como podiam ser 50% ou 0,005%. Se, e sublinho novamente o “se”, forem 10%, o número, espante-se, duplica! Então, porquê 5%, pergunto-me. A explicação vem a seguir: “E a percentagem poderá pecar por defeito: uma sondagem na Escócia revelou que 50% dos menores foram assediados”. Não encontrei a tal sondagem na Escócia – se alguém souber da fonte da mesma, agradeço a referência - mas fiquei a perceber que a estimativa é conservadora! Mas se tiver o mesmo rigor da portuguesa, acho que estamos conversados. Isto para não referir que não podemos extrapolar dados de outra realidade para a nossa, mas enfim. Perante isto pergunto-me se esta é a forma segundo a qual a Polícia Judiciária estima outro tipo de crimes. Se assim for, valha-nos Deus! Mas em Março, expressei ainda outra dúvida: este número (30.000) refere-se a que intervalo de tempo? Um ano? Um trimestre? Um dia? A primeira página do Expresso, elucidou-me: “por dia”!

 

É Fazer as Contas”

Então, usando o mesmo “rigor científico” da regra de três com que se chegou ao número de 30.000 crianças por dia vítimas de assédio sexual através da Internet, façamos algumas contas: em 10 dias temos 300.000 crianças; em 100 dias teremos 3 milhões; num ano teremos 10.950.000 crianças portuguesas entre os 10 e os 15 anos, com acesso à Internet, vítimas de assédio sexual através da Internet! O problema é que este número é, segundo o INE, superior a toda a população portuguesa e em Portugal, segundo os tais dados do INE, nem 1 milhão de crianças temos nessa idade e a dispor de acesso à Internet. Mas o leitor poderá dizer, e muito bem, que estas regras também não são rigorosas, pois como já li, “esta operação não é aplicável neste contexto, pois estaríamos a supor 30.000 novas vítimas por dia, o que não é o caso. Nesta área o mais frequente é a repetição dos abusos sobre a mesma vítima.” Claro que o meu cálculo também não é rigoroso. Limitei-me a seguir o mesmo “rigor científico” seguido para se chegar ao número das 30.000, apenas para demonstrar que estas questões não se resolvem com regras de três simples. E disso dei conta ao Director do Expresso, Henrique Monteiro, “oferecendo” uma calculadora “virtual” que este, muito diplomaticamente e com fair-play, aceitou, acrescentando algo que me preocupou: “Quanto ao número são informações da PJ. Todas as perguntas que fez, fiz eu aos autores” e avise quem deve ser avisado”.

 

Cross-Checking” ou “Fact-Checking”

Preocupa-me que um órgão de comunicação social que prezo e que tenho como fidedigno se limite a repetir dados que lhe são fornecidos por uma fonte, por muito idónea que seja, sem fazer o exercício que fiz acima, sobretudo depois de avisados para a questionabilidade dos mesmos. Por outro lado, teria bastado consultar duas outras fontes alternativas para verificar a fiabilidade destes números.

 

Só Porque Está na Net...”

Só porque está na Internet não quer dizer que seja verdade. E já agora, o mesmo se aplica ao que vemos, lemos ou ouvimos na imprensa, rádio e televisão. Esta é uma frase que uso em quase todas as acções de sensibilização sobre a segurança de crianças e jovens na Internet destinadas a estudantes, pais, professores e outros profissionais. E só neste primeiro semestre de 2009 foram 58 acções em 36 municípios de 13 Distritos do Continente. Nestas acções habitualmente saliento que os conteúdos na Internet não estão sujeitos a mesmo crivo e hierarquia de responsabilidade da generalidade dos meios de comunicação social tradicionais, como a imprensa, rádio e televisão. Nestes, para além do jornalista, os conteúdos passam pelo crivo de Chefes de Redacção, Editores e Directores, enquanto na Internet, apenas os autores dos conteúdos respondem pelo que escrevem. Acresce que aos estudantes, geralmente recomendo que façam como os jornalistas, isto é, cruzem a informação com pelo menos duas fontes credíveis alternativas que confirmem a informação da fonte original. Pena que o Expresso não tenha feito o mesmo. 

 

Qual a Dimensão em Portugal?”.

Perante isto perguntamo-nos: “Então, qual a real dimensão em Portugal do fenómeno do assédio sexual de crianças e jovens através da Internet?”. A realidade é – que seja do meu conhecimento e se alguém o tiver agradeço a referência - não temos nenhum estudo credível realizado em Portugal que nos permita quantificar o fenómeno. Eis uma lacuna que poderia ser colmata mediante um projecto de investigação a desenvolver, por exemplo, no âmbito do Centro de Estudos Judiciários, do Instituto Superior de Ciências Policiais e Segurança Interna, entre outras instituições académicas vocacionadas para este tipo de investigação. E a título de exemplo, à semelhança da informação que partilhei com a jornalista do Expresso, cito a investigação que tem vindo a ser desenvolvida pelo Crimes Against Children Research Center da Universidade de New Hampshire, nos Estados Unidos.


A Concluir...

Pessoas como o Inspector-Chefe Camilo Oliveira e outros profissionais no domínio da protecção de crianças e jovens e da prevenção do abuso e assédio sexual que lidam com testemunhos na primeira pessoa, relatos, imagens e casos de abuso sexual de crianças e jovens são confrontados quotidianamente com uma das piores, senão mesmo a pior, faceta do Homem. Merecem-nos por isso todo o respeito e consideração. Pontualmente recebo testemunhos e relatos e confronto-me com este tipo de casos e acreditem que não é fácil. Por lidarem quotidianamente com estas situações, têm uma noção desta realidade que a generalidade das pessoas não tem. Mas a sua perspectiva tende a ser enviesada. Tomam o todo pelas partes ou vice-versa. Infelizmente, esta perspectiva faz o gáudio de alguma comunicação social que se pauta pelo alarmismo e pelo sensacionalismo. Esta é uma experiência pela qual os Estados Unidos e outros países já passaram e da qual se esforçam agora por sair. É com tristeza que vejo os mesmo erros serem repetidos em Portugal. Digo isto para não ficarem com a ideia que pretendo de algum forma substimar o problema do abuso e do assédio sexual de crianças e jovens através da Internet. Ele existe. Existem as chamadas cifras negras, isto é, crimes não denunciados às autoridades. Estamos perante um problema grave na medida em que um caso, não é apenas um caso. É um caso demais. Desde 2003 que tenho vindo a chamar à atenção para o problema. Mas esse esforço não se pode basear no alarmismo fácil e sensacionalista. O contributo da investigação é essencial para termos uma noção da real dimensão do problema. Mas tal não implica que até lá se fique de braços cruzados. Até lá, há que sensibilizar e educar, algo que tenho feito e que também o Inspector-Chefe Camilo Oliveira e outros responsáveis da PJ, um pouco por todo o país, têm feito. Mas é importante mantermos uma perspectiva equilibrada, sem alarmismos, nem sensacionalismos. De uma forma esclarecida.